Ricardo Arona
Edição 16

Tri-campeão mundial, tri-campeão brasileiro de Jiu-Jitsu e cinco vezes campeão do ADCC. Com tantos títulos, Ricardo Arona aposentou o kimono e saiu direto dos tatames para os ringues do Japão, a convite de empresários do maior evento de MMA da atualidade, o Pride.

Em entrevista ao Dojô, Arona conta como foi a sua trajetória no esporte até os dias de hoje.




Quando começou a praticar Jiu-Jitsu?
Com 14 anos quando assisti a luta do Wallid, do Murilo e do Fábio Gurgel no Maracanãzinho contra a luta livre, neste dia eu vi a eficiência do Jiu-Jitsu sobre outras lutas, eu fazia Judô e passei a praticar o Jiu-Jitsu, isso foi em 1991.

No início foi só brincadeira ou você já achava que seria um campeão?
No início foi por curiosidade, pra conhecer a luta, mas com um mês de treino já vi que era um competidor de Jiu-Jitsu e que tinha potencial pra competir. Pessoas importantes me diziam que seria um grande atleta e fui muito incentivado desde novo a treinar, pra chegar onde cheguei.

Quando você percebeu que a sua vida no Jiu-Jitsu passou a ter o rumo das conquistas e que poderia ir mais além?
Eu percebi isso quando tinha 15 anos e peguei a faixa azul, treinava com 5 amigos dentro de uma garagem, treinávamos ali o dia inteiro e fui para o campeonato brasileiro sem ninguém me conhecer. Fui campeão brasileiro vencendo atletas de ponta, inclusive alunos do própio Carlson, foi quando eu vi que realmente estava no caminho certo.

Quando você parou de lutar de kimono e por quê?
Parei quando cheguei na faixa preta, o que eu mais queria era competir de faixa preta, mas ainda na marrom venci Abu-Dabhi e quando acabou o evento fui convidado pra lutar no Japão, eventos como o Pride e o Rings e por questões financeiras, fui lutar Vale-Tudo, porque Jiu-Jitsu você luta por amor e não tem recompensa, você gasta muito e não ganha nada, então fui pro Vale Tudo pra ganhar a vida, ganhar dinheiro.

Alguns lutadores e verdadeiros talentos estão abandonando o Jiu-Jitsu precocemente em busca do sucesso no MMA. Você não acha esse tipo de atitude prejudicial tanto para o atleta quanto para o esporte?
Acho que não, porque existe a renovação, têm pessoas começando que querem chegar ao topo e depois que a pessoa conquista muita coisa no Jiu-Jitu ela quer mais e quer viver da luta, e pra viver do Jiu-Jitsu é praticamente impossível você vive do MMA, mas do Jiu-Jitsu é impossível. É muito difícil ganhar dinheiro com Jiu –Jitsu, a não ser que você vá ministrar aulas na América, na Europa, agora no Brasil é muito difícil, este é o motivo das pessoas olharem pro MMA e focarem nisso.

Os seus fãs ainda vão vê-lo lutar de kimono ou nunca mais?
O que eu mais quero é ter disponibilidade de tempo pra voltar a competir de kimono, com certeza vou voltar porque é uma paixão, é onde tudo começou e na verdade só não faço isso agora porque os calendários das competições de Jiu-Jitsu sempre batem com eventos do Pride. Enfim, vou esperar ter um tempo maior para competir no Jiu-Jitsu também.

Hoje, você, como lutador de projeção internacional e um ídolo no MMA se sente cobrado em relação a resultados?
Com certeza, sempre fui cobrado por ter patrocínio e sempre tive um orgulho muito grande de ser lutador. Não aceito a derrota de maneira alguma, embora você aprenda com ela, não deve se acostumar a perder, então eu quero ser vencedor, minha vida sempre foi de vitórias e quando eu perco, alguma coisa faltou e preciso corrigir, mas a cobrança é importante, ela faz você ser mais profissional.

Você se cobra muito em relação a treinamento?
Sim, hoje em dia faço treino de manutenção e faltando 50 dias antes da luta intensifico bastante esses treinos pra chegar ao ápice, é basicamente assim o treinamento do lutador de ponta.

Como é a sua rotina de treinos?
Preparação física na parte da manhã, parte técnica à tarde e a noite musculação com trabalho de força.

Você segue algum tipo de dieta?
A dieta que eu faço é tipo geral, eu tenho um biotipo bom, posso me alimentar de praticamente tudo, mas cortei da minha vida há 8 anos, açúcar, óleo, frituras, refrigerantes, coisas que prejudicam a todos, não só a mim, e procuro direcionar minha alimentação pra proteínas e carboidratos, que é a alimentação que vai me gerar força e energia pros treinamentos.

Fora as competições e treinos, o que você mais gosta de fazer?
Eu gosto muito de estar em contato com a natureza, porque toda minha força, energia e concentração, eu tiro da natureza, então eu gosto de surfar, caminhar nas montanhas, andar de skate, gosto de curtir muito esse outro lado que tem tudo a ver com a luta.

Você seguiria a carreira de surfista se não fosse lutador?
Eu gosto muito de surf, mas acho que pra mim é lazer mesmo, seguir carreira de surfista tem que começar bem cedo, pois os profissionais hoje com 17 anos já arrebentam, então pra mim é lazer mesmo.

Você acha que em termos de patrocínio as coisas melhoraram, ou ainda falta incentivo por parte das empresas?
O Brasil ainda não melhorou nessa questão de patrocínio, é fraquíssimo, o atleta tem que caminhar por si só. Muita coisa depende de mudança e não vai mudar com facilidade não, pois a visão do empresário brasileiro ainda é egoísta em relação a isso, eles até podem investir em alguém, mas só se esse alguém já for reconhecido no mundo inteiro, se precisar de um apoio para chegar lá, você não vai chegar.

O que falta no Jiu-Jitsu de hoje e o que você mudaria?
Uma melhor organização, porque há uns dois ou três anos atrás, surgiu mais uma Confederação, ou seja, há um conflito dentro do próprio país, onde o Brasil é a capital mundial do Jiu-Jitsu. Tem que haver planejamento sobre isso, fazer somente um evento, não existe fazer dois Campeonatos Mundiais dentro do mesmo país e às vezes no mesmo dia e horário, isso está errado, precisa ser organizado, enfim muita coisa precisa ser mudada no Jiu-Jitsu.

Você acha que as Confederações e Federações têm contribuído para o crescimento e desenvolvimento do esporte?
Acho que a contribuição que elas dão pro esporte é manter pelo menos uma regularidade no calendário de eventos, elas têm os eventos e isso é muito importante pro esporte, o esporte que não tem evento, nem competição, não evolui, mas falta muito nessas competições, o atleta precisa de muito mais, tendo em vista que o desgaste é muito grande no treinamento e a recompensa é muito ruim.

Por quê você acha que o Jiu-Jitsu ainda não se tornou olímpico?
Justamente pela organização e a maneira que é disseminado em alguns lugares do mundo. Para que isso aconteça, vou citar o Judô como exemplo de organização, e nisso o Jiu-Jitsu tem que seguir o Judô, da maneira que ele foi difundido no mundo todo, mas eu acho que a gente caminha pra isso, mesmo que lentamente, porque o Jiu-Jitsu é uma febre mundial, o mundo inteiro pratica, eu viajo o mundo todo e aonde eu chego às pessoas vem falar comigo, quer dizer, a luta é conhecida no mundo todo, e pra mim é uma questão de tempo.

Que importância teve pra você essa vitória no Pride 28, resgatou a sua autoconfiança?
Com certeza, pois eu vim de uma derrota para o Quinton Jackson, a qual não aceito, pois levei uma cabeçada muito forte e eu vinha vencendo a luta disparado, sem levar um golpe a luta inteira, na minha opinião essa luta tinha que ser dada como não válida. Então, eu já vinha mordido com a luta anterior e queria mostrar que eu tenho muito a fazer, e que ainda vou dar trabalho a muita gente, porque sou novo e quero lutar pelo menos mais uns dez anos. Pra mim foi muito importante, porque entrei no ringue diferente, lutei diferente, cheguei mais rápido ao objetivo e é assim que vão ser todas as lutas daqui pra frente.

O Minotauro declarou que você lutou como ele nunca viu e que se der sequência nas lutas dessa maneira, não tem pra ninguém. O que teve de tão especial nessa luta?
Nessa luta eu vinha com a mente diferente, transformações que aconteceram na minha vida pessoal e que refletiram na minha vida profissional e que foram muito importantes, pra que eu entrasse mais determinado. Essa luta foi muito importante, não só pela vitória, muita coisa passava pela minha cabeça ali e por isso, eu lutei diferente e deu certo. Espero que todas as minhas lutas sejam assim, que eu entre com a mesma determinação desta.

O que você tem a dizer sobre a sua luta contra o Quinton Jackson?
Foi uma luta que tava toda na minha mão, em que eu não levei um golpe durante oito minutos, dei mais de dez chutes nele, socos, caneladas, no chão ataquei braço, raspei, montei, quer dizer uma luta que eu tinha nas minhas mãos, até o ponto do bate estaca, coisa que eu não me preocupo, pois sou treinado pra isso, nunca apaguei num bate estaca, realmente o ponto chave foi a cabeçada que eu levei no queixo, que quebrou o meu nariz e meu dente. Quando eu voltei, tava com uma porrada na cara, quando não tinha levado um soco em toda a luta, quer dizer, uma cabeçada na boca de um cara de cem quilos naquela altura, é difícil você não apagar. Enfim, eu achei que foi injusto, porque cabeçada não vale e a luta teria que ser anulada, mas vou ter várias oportunidades de pegar ele de novo.

Você tem algum ídolo no esporte?
Tenho vários ídolos no esporte, mas há uma pessoa em especial, o Rickson Gracie, propriamente porque ele partiu e levou esta luta pro mundo, mostrando a eficiência do Jiu-Jitsu, então, eu o tenho como ídolo principal, por ele ter sido o primeiro a desafiar e mostrar o Jiu-Jitsu. Tenho outros ídolos, que estão mais velhos e que muita gente não acompanhou, como o próprio Carlson Gracie, que foi o primeiro da família Gracie a comprar o barulho do próprio Hélio Gracie, quando ele perdeu a luta pro Kimura e foi o primeiro a fazer Vale Tudo e lutar com todo mundo. O Rickison teve a visão de levar o Jiu-Jitsu para o mundo e abrir as portas pra gente como eu, que ganho a vida dessa maneira, então o Rickson é uma pessoa que eu tenho uma admiração especial em relação a isso.

Quem você citaria como promessa no MMA?
No Brasil nós temos muita gente, o material humano é perfeito, o melhor do mundo pra fazer campeões, então seria injusto da minha parte citar um só nome, pois tenho grandes amigos com potencial pra chegar lá, é questão de cada um mostrar serviço e o pessoal vai ver que tem gente vindo aí.

Quais os sonhos que você tem agora no MMA e o que planeja para o futuro?
Meu sonho é o mesmo desde que cheguei no Pride, o cinturão. Já tenho o de Abu-Dabhi, do Rings e do Naga. Quero o cinturão do Pride, pra botar na cintura e ficar até o final.

O Wanderlei tem feito declarações a seu respeito. Qual o recado que você manda pra ele?
Quanto mais ele falar, mais eu gosto, porque eu sou um cara movido inteiramente pela emoção e quanto mais ele diz que vai me bater, vai me quebrar, mais eu treino pensando nele e olhando pra cara dele. Então, eu adoro isso, gosto quando o adversário me desafia pessoalmente, deixa de ser profissional e parte pro pessoal, isso me dá muito mais tesão pra lutar.