Hélio Gracie
Dezembro de 2006



Hélio Gracie - O Símbolo do Jiu-Jitsu

Tudo começou na Índia, há mais de dois mil anos, quando os monges indianos eram atacados por bandidos e Proibidos pela religião de usar armas, criaram um tipo de defesa especial para o tipo físico do seu povo, franzino e de baixa estatura.

Essa técnica acabou atravessando a fronteira da China, onde se desenvolveu e foi parar no Japão, lá conhecida apenas pelos nobres e samurais. No Japão, foi a luta mais praticada durante muito tempo, até o surgimento do Judô em 1882.

O Jiu-Jitsu, que significa “arte suave”, chegou a ser proibido durante um certo período. Em 1917, chegou ao Brasil através de Mitsuyo Maeda, também conhecido como Conde Coma, na época enviado ao Brasil em missão diplomática.           

Maeda, em função da amizade estabelecida com Gastão Gracie, ensinou a seu filho Carlos, que por sua vez ensinou aos seus demais irmãos. O Jiu-Jitsu tomou forma e foi difundido por Carlos e Hélio Gracie, com o intuito de dar chance aos mais fracos de enfrentarem os mais fortes e pesados.

Hélio Gracie foi a engrenagem fundamental para o desenvolvimento do Jiu-Jitsu, arte marcial que conquistaria o mundo anos depois. De estatura baixa e pesando aproximadamente 60 quilos, desafiou os melhores lutadores de sua época, apavorando a todos, com o único objetivo, o de provar a eficiência do Jiu-Jitsu sobre as outras modalidades de luta, sendo precursor do Vale –Tudo, hoje uma febre mundial.

Com a proposta de resgatar o passado e mostrar aos nossos leitores, sobretudo a nova geração do esporte, a trajetória dessa lenda viva que dispensa apresentações, subimos a serra em direção a Itaipava, no Rio de Janeiro, onde fomos muito bem recebidos pelo próprio Hélio e sua esposa, Dona Vera.

De cara nos surpreendemos com tamanho vigor físico e disposição do mestre, afinal são 94 anos. Fórmula mágica? Talvez sim, mas com ingredientes que ele mesmo escreveu ao longo dos anos, medidos pela disciplina, alimentação equilibrada, prazer no que fez durante toda a vida, determinação e simplicidade de sua rotina, que vai do café da manhã até o primeiro jornal da noite, antes de dormir.

O templo

O sítio denominado “Nosso Vale”, onde vive há quinze anos, é um verdadeiro paraíso, cercado de verde e belezas naturais, onde escutamos apenas o canto dos pássaros. O terreno de 300 mil metros quadrados, localizado na área mais valorizada da cidade, abriga a casa simples e ampla, com 8 quartos, para receber os filhos e netos.
Guardadas com muito cuidado e organização, as centenas de  fichas dos ex-alunos, ainda em perfeito estado, são mantidas junto a fotos em seu escritório e em três grandes álbuns, um vasto material com recortes e matérias de grande parte da família. No último cômodo da casa, finalmente a academia, onde costuma passar seus ensinamentos para os netos, que freqüentemente passam uma temporada com o mestre.
 A paixão pelo sítio é extrema e incondicional, tão grande que quando falamos na cidade logo vem a repulsa: “Cidade pra mim não interessa, eu moro num paraíso, um jardim de 300 mil metros, sem vizinhos nem ninguém pra chatear, de modo que pra mim está ótimo, estou tranqüilo esperando o meu último dia”, diz.

A criação

O Jiu-Jitsu está tão inserido em sua vida e há tanto tempo que se confunde com os anos. “Eu sempre fiz Jiu-Jitsu, desde que me entendo por gente”.

Sobre a diferença do Jiu-Jitsu praticado hoje e o que ele criou, comenta: “A técnica não é tão apurada, mas é parecido e quanto mais parecido eles fizerem, melhor pra eles”.

Hélio desafiou todos os lutadores de sua época, portanto se considera o precursor do Vale-Tudo no mundo. “Eu comecei muito cedo e acho que o primeiro Vale-Tudo no Brasil e no mundo fui eu que fiz contra Fred Ebert, vice-campeão do mundo de Luta Livre. Fiz uma luta com ele muito grande e ele acabou indo pro hospital. Se não fui o primeiro, fui um dos primeiros, mas não lembro de nenhum lutador na época”.
O treinamento feito antes das lutas surpreende, principalmente tendo conhecimento da forte carga de exercícios praticados pelos atletas de hoje, onde são incluídas sessões de musculação, natação, corrida entre outras. Mas pasmem, a única ginástica praticada pelo mestre era simplesmente treinar com os alunos.
Os combates mais difíceis e longos da carreira foram contra Kimura e Waldemar Santana. O primeiro foi apontado pelo mestre como o mais duro de todos, pois o oponente era o melhor do mundo, forte e muito técnico. O segundo o mais longo, com duração de três horas e quarenta e cinco minutos em apenas um round.
“Contra o Waldemar a luta foi suspensa pela duração, pois já se passavam três horas e quarenta e cinco minutos. Já o Kimura pegou meu braço, eu não estava sentindo, mas meu irmão jogou a toalha, na suposição que ele pudesse me machucar”.

“Eu não sou forte, sou técnico e me dei bem só com a técnica. Mas se eu tivesse o físico de pessoas que andam por aí, forte à beça, poxa, ganharia dez campeões mundiais um atrás do outro”.

A fama do Gracie era tão grande, que precisava usar dezesseis quimonos para dar as quase trinta aulas diárias e até o Presidente da República na época, João Figueiredo era seu aluno.
O Vale–Tudo, hoje disputado de igual para igual, onde os atletas praticam várias modalidades de lutas, não perdeu a graça para o mestre, que diz: “Não acho que perdeu a graça, apenas uns sabem mais do que outros, na certeza de que, quem praticar com mais perfeição o meu Jiu-Jitsu, será mais eficiente. O Royce, por exemplo, teve uma falha contra o Matt Hugues, fez a besteira de cair de costas e o americano se deu bem. Já o Rickson, se lutar, vai se dar bem e apesar da idade um pouco mais avançada é um cara forte, contra balança e pode se dar bem”.
O tema Olimpíadas, interesse de todos, principalmente dos atletas de Jiu-Jitsu, não empolga o mestre, pois acha que tal oportunidade não aparecerá, devido ao esporte ser ainda pouco praticado fora do país.

A família

Os Gracie são oriundos da Escócia, mas Hélio e seus irmãos nasceram no estado do Pará. Os nomes iniciados com a letra R, diz o mestre que foi idéia de seu irmão Carlos, pois achava o R uma letra forte, que dava um pouco mais de vibração ao nome. Fazem parte do clã de Hélio Gracie, os famosos Rickson, Royce e Royler, além de Rorion, Relson, Rolker, Rérica, Robin e Ricci.
A conversa com o Gracie foi longa, envolvendo vários assuntos entre luta - como não poderia deixar de ser - família, dieta e muita curiosidade. Uma delas foi a respeito dos braços existentes na família em termos de academia, como: Gracie Barra, Gracie Humaitá, Carlson Gracie, assunto que deixam os praticantes e principalmente os leigos sem entender o porquê de não haver uma unificação, já que teoricamente seria vantajoso para toda família. A resposta é rápida e na ponta da língua, assim como todas: “Se todos seguissem o meu Jiu-Jitsu, seria bom, pois seria aprimorado, porque o que eu faço é o Jiu-Jitsu que faz menos força e tem mais eficiência. Os que não sabem com tanta perfeição, usam o físico”.
Ainda sobre a família, abordando a estranha relação entre os Gracie e o público, que vai ao delírio com a derrota e aplaude de pé com a vitória, a sabedoria responde: “Todo cara que chega ao estrelato cria um grande número de adversários, ou seja, de pessoas que são contra, gente que não quer ver nunca você no topo, isso é normal no mundo inteiro. Um grande campeão tem admiradores, mas também tem muita gente querendo ver ele cair. O sujeito sobe muito e todo mundo quer derrubar o cara”- risos.

A dieta da família foi criada pelo irmão Carlos, ganhou fama e é seguida por toda a família, além de uma legião de admiradores. Carlos foi o segundo pai de Hélio, como o próprio diz. O irmão, bem mais velho lhe passava bons conselhos e orientações, praticadas até hoje. O segredo da dieta você fica sabendo agora por um dos primeiros seguidores.  “A dieta é não misturar um alimento com outro que não combine, porque às vezes você mistura as comidas e aquilo fica uma bomba na barriga, fazendo com que o estômago faça esforço para digerir e isso é um desgaste físico. Então, a nossa foi feita por meu irmão, que criou um regime onde os dois alimentos ingeridos, não briguem um com o outro, quer dizer, que eles se absorvam normalmente evitando esse desgaste”.